Patrimônio: a difícil tarefa de renovar

A renovação bem sucedida de edificações históricas passa, inevitavelmente, pelas considerações sobre dois critérios de projeto antagônicos e, às vezes, complementares: o enfoque suave e consistente do edifício histórico existente vs. o rompimento combinado com a inovação plástica.

Enfocar com suavidade e consistência as potencialidades do patrimônio arquitetônico deve significar uma intervenção “imperceptível”. Intervir utilizando geometrias, materiais e técnicas construtivas que não impactem visual nem construtivamente no objeto edificado pré-existente, limpando excessos de intervenções posteriores à sua época, corrigindo imperfeições construtivas e técnicas, adaptando usos e valorizando de forma limpa a percepção do objeto único, pioneiro. Além do rigor plástico deve-se, portanto, reformar ou ampliar de forma que efetivamente o novo se integre à cada parte do elemento construído original como um anexo, um aplique, que de ser demolido ou retirado o deixará intacto. Tal enfoque simplista requer tremendo conhecimento técnico (novos materiais, aplicação minuciosa de novas e consolidadas técnicas construtivas, rigor plástico, atenção aos detalhes de projeto, ensaios de soluções, inovações técnicas ou espaciais, etc).

Romper e inovar plasticamente pode significar uma ação igualmente enriquecedora, podendo se traduzir visualmente com a percepção de “um edifício dentro de outro” ou ainda, partes dele. O projeto de reforma do Mercat de Santa Caterina, em Barcelona, exemplifica claramente esse efeito. Há uma superabundância de formas e cores na nova cobertura que abraça, se debruça sobre as fachadas originais, envolvendo-as e integrando o seu interior como se de um lenço lançado ao ar se tratara.

Mercat de Santa Caterina. Arquitetos Enric Miralles e Benedetta Tagliabue

Mercat de Santa Caterina. Arquitetos Enric Miralles e Benedetta Tagliabue

Percebe-se, entretanto, do ponto de vista do transeunte  que são duas estruturas completamente independentes, estrutural e plasticamente  pertencentes a autores de épocas diferentes. Tal efeito plástico “rompedor”, também atua como elemento de valorização do antigo, enaltecendo a diferença de formas, estilos, épocas. Enfatizamos o cuidado do arquiteto com a perspectiva do pedestre no perímetro externo do edifício onde há uma apreensão espacial clara entre ambas arquiteturas, porém menos carregada de formas e cores. Neste ponto de vista a madeira clara, elemento neutro e cálido, se aplica à perfeição dentro do contexto histórico. A riqueza espacial da cobertura, as cores e sinuosidades que evocam frutas, serão vistas dos balcones dos edifícios que cercam o Mercat.

Coberta ondulada em cerámica colorida sobre estrutura metálica com interior de madeira, cobrindo todos os postos do mercado. Mercat de Santa Caterina. Arquitetos Enric Miralles e Benedetta Tagliabue

Coberta ondulada em cerámica colorida sobre estrutura metálica com interior de madeira, cobrindo todos os postos do mercado. Mercat de Santa Caterina. Arquitetos Enric Miralles e Benedetta Tagliabue

Dentro das duas perspectivas citadas, acreditamos que abarcar a variedade do patrimônio edificado deve supor, sempre, o enaltecimento e respeito rigorosos à sua originalidade, linguagem e matizes, aliados ao suprimento de possíveis falhas e adequação às novas necessidades que geraram o escopo de contratação de sua reforma.

O resgate histórico precedente, o estudo daquela obra de arte, da sua época, das técnicas construtivas empregadas, materiais utilizados, a evolução de usos no decorrer do tempo, acervos fotográficos existentes, bem como a evolução do seu entorno indicarão as premissas de projeto.

Cabe destacar a importância  em certos casos de forma ainda mais explícita, do estudo da obra dentro do seu contexto urbano, do estudo paralelo da evolução do seu entorno, das tendências de usos cambiantes daquele bairro que, por vezes, pode estar a ponto de sofrer prementes mudanças que influirão, também, no nosso objeto e em seu uso a médio prazo. Nesse sentido, as  tendências de sustentabilidade locais, nacionais e em certos casos, internacionais são frutífero campo de investigação e consulta.

Entendemos que a reforma bem sucedida de edificação histórica deve ser reversível,  sustentável: um edifício histórico não deve passar por reformas indiscriminadas ao longo do tempo, sendo básico, portanto, “universalizar” programas e critérios,  não super-compartimentar espaços restringindo usos e não utilizar materiais e técnicas irreversíveis.

O comprometimento profissional e ético do arquiteto deve pautar-se, portanto, em interpretar este inventário e as múltiplas possibilidades visando a construção de um marco de diálogo limpo e eficaz com o antigo.

Rachel Dourado

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