O apagar de uma memória

Outro dia estava escutando um psicólogo descrever como a memória é dinâmica e maleável, até certo ponto, sua tese, na verdade uma constatação científica, era que toda memória é uma construção imaginária do que se acredita ser de fato a experiência vivida.

Por vezes ao tentar rememorar fatos antigos pude constatar que em efeito não podia ter certeza se a memória de eventos tão distantes decorriam da minha experiência pessoal ou se já possuíam até certo ponto a contribuição de fotos de família e anos de recordações das recordações.  Em certa medida, poderia ser perfeitamente possível criar memórias que não vivi.  Mas isso não me surpreende. Quem de nós não conheceu alguém que de tão convencido da mentira de fato passou a enxergá-la como verdade? O que me incomodou foi outra constatação que o raciocínio me leva.

Estudei na escola classe 102 sul e era morador da 303, por coincidência ambas as quadras contavam em sua maioria com blocos com o mesmo projeto, que depois vim a saber serem de Eduardo Negri, arquiteto que fez parte da equipe de Niemeyer. Todos os prédios contavam com uma unidade de linguagem e se diferenciavam delicadamente pelas cores da pastilha de vidro que revestiam os parapeitos. Estes eram marcados por perfis que definiam a modulação de 1,20 m e resolviam o problema recorrente de dilatação das pastilhas.  Lembro que ao observar os prédios, mentalmente os enxergava como um grande brinquedo de encaixe e ainda criança em minha mente podia ver os módulos se movimentando e se encaixando. O fato de terem cada qual a sua cor também era fantástico. Não era uma cor sólida, dependendo da hora do dia a cor adquiria outros nuances, um furta-cor elegante como poucos prédios de Brasília. Como também ex-morador de um dos inúmeros blocos de Niemeyer da 107 sul, posso afirmar ser este um claro caso em que o pupilo superou o mestre. Comparo a personalidade que esses prédios de Negri davam às quadras ao mesmo efeito que pode se sentir, ainda hoje, ao visitar as extraordinárias 114 e 308 sul. Não dá para imaginá-las sem seus blocos.

SQS 303 Bloco C - Arq. Eduardo Negri

SQS 303 Bloco C – Arq. Eduardo Negri

Por mais uma dessas coincidências que a vida prega, na ocasião em que iniciei minha graduação em arquitetura na Universidade de Brasília – após jurar na minha mesma infância que nunca seria arquiteto, ao constatar diariamente o tanto que meu pai trabalhava – em uma das primeiras matérias que tive, meu professor, um arquiteto já de idade avançada, muito amável, chamado Castilho, abriu uma série de plantas em papel manteiga para demostrar como ao seu ver deveria ser apresentado um projeto. Para minha surpresa lá estava o estudo preliminar da escola em que estudei na 102 sul. Lembro claramente de ainda olhando as perspectivas avisar ao professor: “eu estudei nessa escola, no seu projeto…” E ele como quem se dá conta dos anos que se passaram, abriu um sorriso meio desconcertado e me perguntou: “o que você achou?” No que respondi ter achado fantástica e que mesmo quando muito pequeno já tinha consciência do quão agradável era o espaço. Depois ainda discuti algumas soluções do projeto da escola e o questionei sobre o formato da sala de aula, que continha uns ângulos que conformavam a entrada e um jardim interno, disse-lhe que havia lido em um livro de arquitetura escolar, que de forma dogmática, terminantemente proíbia tal solução porque poderia perturbar as crianças. No que ele imediatamente me inquiriu: “E lhe perturbava?” “Nem um pouco! Achava sensacional e se tive algum distúrbio por conta dela acho que ninguém percebeu.” Risos se seguiram de ambas as partes.

Andando hoje pela 102 sul me dei conta de que um dos prédios de Negri, me perdoem os moradores, parece um grande banheiro. Outro, não consigo achar outra palavra, foi profanado, acreditem se quiserem emassaram as pastilhas de vidro. E outros dois seguem a ditadura do revestimento em granito. Como se isso garantisse qualidade arquitetônica. Ao me cansar do desgosto de observar o estado dos prédios volto meus olhos a minha escola classe. Largada como quase tudo nessa cidade. Melhor ir embora.

Em um dos blocos da SQS 102 emassaram as pastilhas de vidro.

Em um dos blocos da SQS 102 emassaram as pastilhas de vidro.

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Falta de manutenção.

Falta de manutenção.

A completa descaracterização de mais um dos blocos da SQS 102

A completa descaracterização de mais um dos blocos da SQS 102

Escola Classe 102 sul

Escola Classe 102 sul

A quadra a que minha memória remonta não está mais lá. O ambiente físico em que vivi já não seria mais capaz de reforçar ou recriar as lembranças que tive. Na verdade hoje ao contar a alguém sobre a mágica da quadra em que estudei, certamente passaria por louco ou por mentiroso, talvez seja culpa dos tais ângulos da sala de aula.

Eduardo Sousa e Silva

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  1. Marcelo

    Entendo o descontentamento de vocês com relação à arquitetura original dos prédios, conforme projetos da década de 60 e 70. No entanto, os prédios não foram tombados. E para haver esta preservação, não basta a vontade, mas uma lei que obrigue o tombamento de todos os prédios do Plano Piloto (o que há atualmente é o tombamento volumétrico – altura dos prédios e largura).

    Deveríamos também nos preocupar com as invasões nos fundos das quadras comerciais, em especial da Asa Sul. Apesar de existir lei desde 2008 que estabeleçe o limite máximo de 6 metros nos fundos, que dá uma volumetria igual a todo o comércio, alguns empresários além de usar os 6 metros nos fundos, estão fazendo verdadeiros jardins particulares, chegando a colocar mesas até a calçada próxima às residências. Exemplos: SCLS 403 (fundos do antigo Expand e fundos do Piauí Distribuidora), fundos de várias lojas na SCLS 408 (quadra do Burguer King e Mc Donalds), SCLS 404 e 405 (Rua dos Restaurantes), SCLS 115 (fundos do Ernesto Café), dentre outros.

    Será que a AGEFIS está fazendo algo?

    E nós consumidores? Continuaremos a frequentar comércios que desrespeitam a lei dos Puxadinhos (Lei Complementar 766/2008) ?

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  2. Tarsila Almeida y Soter

    Atualmente moro em Salvador mas morei minha vida toda no bloco G da 303 sul, onde ainda tenho apartamento. E assim como vc estudei na 102 sul. Hj me encontro passando uns dias em Bsb. O prédio está passando por reformas. Trocaram os elevadores, estão arrumando a parte elétrica. A sindica, q eu n conheço, com carinha de menina, quer pq quer aprovar, junto a um pequeno grupo de moradores, q seja mudada a fachada do nosso prédio. Quer tirar as pastilhas azuis e colocar mármore. Hj inclusive tem reunião de condomínio. E eu posso garantir a vcs q eu vou ‘gritar’ a minha opinião sobre essa questão dela querer a qlqr custo mudar a cara da nossa quadra e principalmente do nosso prédio!!!

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    • Tarsila salve seu prédio e seu patrimônio!
      Nada impede que seja feita uma reforma preservando as características do prédio. Daqui a alguns anos a mesmice do granito passará e as pessoas darão o devido valor aos edifícios bem conservados!

      Paciência e sabedoria na sua reunião!

      Eduardo Sousa e Silva.

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  3. Olá! Eu cheguei a este texto buscando informações sobre a reforma tenebrosa que está em curso nos pilotis do bloco D da SQS 314, como o Marco bem descreveu em seu comentário, os blocos originais são típicos de uma época da cidade que eu me ressinto em não ter presenciado. Sequer cheguei a conhecer os azulejos amarelos e só consegui salvar alguns cacos dos azuis que foram retirados do bloco D. Em agosto de 2014, eu comecei um projeto fotográfico pelas superquadras da asa sul, quase que diariamente eu saio e faço registros de todos os blocos, visitando cada quadra pelo menos uma vez. A primeira foi a 102, então segui em zigue-zague (100, 200, 300, 400, 400, 300, 200, 100…), até chegar à 314 hoje de manhã cedinho. Como já tinha feito um passeio pela quadra alguns meses atrás, eu já sabia que nem todos os blocos preservaram seus azulejos e seus pisos de lajotas, mas nunca poderia imaginar que em pleno 2015, algum grupo de moradores pudesse votar por uma reforma desse tipo, tão descaracterizante, sem qualquer senso de preservação de patrimônio. Fico admirado que esses blocos nunca tenham sido tombados por algum órgão distrital e muito me preocupa que a senhora arquiteta responsável tenha aceitado atender à demanda dos moradores, sem manter o mínimo das características originais do projeto.

    Abaixo listo outros absurdos que encontrei na peregrinação pela asa sul:

    – 103, minha quadra, bloco B: os pilotis são quase que 100% ocupados por paredes de vidro;
    – 303, blocos J e K: o projeto do Stélio Rodolpho Seabra tinha placas em níveis de profundidade diferente, fazendo da fachada principal um grande painel em relevo. (não cheguei a ver como era pessoalmente, mas pelo registro no catálogo do Iphan sobre superquadras era algo único);
    – 102: fachadas revestidas de granito no bloco B, reforma ainda inacabada;
    – 105, do Hélio Uchôa: descaracterizaram toda a fachada principal do bloco, salvo engano do Bloco B;
    – 305, também do Uchôa: reforma inusitada nos pilotis do bloco K, não ficou exatamente feio, mas é tão estranho que acho que não combina nada com nosso parque Guinle brasiliense.
    – 400:
    * blocos “R-2”, do Milton Ramos, espalhados por várias superquadras, um monte deles sofreu com empastilhamento tipo banheirão. Sofro de pastilhofobia crônica, difícil até de olhar. Mas o top é o bloco J da 411.
    Prefiro nem comentar sobre os blocos JK do Niemeyer, pastilhas, pastilhas..

    Talvez seja melhor parar com os exemplos, já deu pra ilustrar minha indignação. O consolo é saber que há mais indignados por aí, obrigado pelo texto, Eduardo, e obrigado, Marco, pelas informações sobre a 314, conversei com alguns porteiros e zeladores, mas nenhum sabia tantos detalhes dos prédios antes das reformas.

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  4. Se por um lado fico triste de ouvir o relato, por outro fico feliz de não sermos os únicos a ficarem incomodados Marco. Façamos a nossa parte e dentro do nosso alcance tentemos disseminar o valor, não só arquitetônico mas cultural, que está se perdendo. Em tempo esse trabalho de formiguinha surtirá efeito através da conversa com amigos, vizinhos e mesmos síndicos. Não sou contra revitalizações e reformas mas o que vemos transcende muito isso e de forma geral se vale de décadas de descaso, que de alguma forma legitimam as soluções açodadas e atrapalhadas que se seguem e que acabam por destruir o patrimônio de seus proprietários – muito embora demorem ou sequer se deem conta do equívoco. Ainda assim creio que o modismo passará e espero que belos exemplos resistam a prova do tempo e por que não do mau gosto.
    Eduardo Sousa e Silva.

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  5. marco

    Sou morador da 314 sul, e como você, presencio chocado a destruição gradual da história de Brasília. A 314 sul foi construída na década de setenta pela empresa Encol. Todos os blocos foram projetados pelo arquiteto Eduardo Negri. A quadra possui blocos com apartamentos de 3 ou 4 quartos. O piso preto se destacava abaixo de pilares brancos para dar a impressão que o prédio estivesse levitando. Para compor a fachada o arquiteto alternou as janelas com faixas coloridas: vermelho, azul, verde amarelo. Único exemplo em Brasília, todos os blocos mantinham o mesmo estilo e a mesmo motivo na decoração dos pilotis: piso preto (em lajotas colocadas por meio da agora desaparecida técnica do bolão), pilares brancos, azulejos coloridos com motivos geométricos com círculo e losangos. Apenas as cores mudam, ou melhor mudavam, pois muitos prédios já resolveram modificar a estrutura prevista originalmente. Mediante essa padronização e mudança de cores, a quadra era harmônica, mas ao mesmo tempo não era monótona. Hoje em dia, possuem ainda os azulejos originais os blocos: B (vermelho), D (azul, por enquanto), Bloco G (azul), K (verde), I (vermelho) e F (verde). O azulejo amarelo despareceu da quadra. Todavia graças a esses prédios a quadra mantém viva sua história e tradição, com uma arquitetura típica de Brasilia pós–Neymayer, onde as cores predominam sobre os tons cinzentos do grande arquiteto. A partir dos anos oitenta, vários blocos resolveram reformar o pilotis, cada um da forma que entendeu mais bonito. O piso de lajotas foi substituído por um piso de granito, retirando assim toda a leveza que o arquiteto originalmente queria dar aos prédios. Os pilares também não resistiram à triste intervenção. O mármore branco foi arrancado e no seu lugar foi colocado granito igual ao do chão, assim em vez da leveza de um prédio flutuando, passa-se a ideia de um prédio assentado numa enorme pedra. Em pisos deste tipo, quando chove, florescem lindos triângulos amarelos espalhados aqui e lá, informando do perigo de levar um tombo, pois o piso se transforma numa verdadeira pista de gelo.
    O Bloco que está sofrendo essa intervenção destruidora atualmente é o Bloco D, com a retirada do seu piso (lajota preta), mármores dos pilares e, principalmente, dos seus azulejos azuis e brancos (típicos dos anos 70). É com muita tristeza que relato esse fato e compartilho com você essa absurda realidade.

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