Cidadania, a gente vê por aqui (?)

Mesma calçada, dias e carros diferentes. Fotos: Renata Sene

Mesma calçada, dias e carros diferentes. Fotos: Renata Sene

As pessoas andam declarando seu amor por Brasília. Querem proteger a cidade, “usar” mais a cidade, tudo muito positivo e louvável. Vejo movimentos predominantemente jovens de defesa da cidade e – até certo ponto – de adequação do ideal modernista a nós imposto à realidade vivida e desejada pela sociedade atual. As propostas são várias: use menos carro, se aproprie do espaço livre e público que está aí para todos mas ninguém usa (nem cuida), ande mais a pé e de bicicleta, lute por mais ciclovias e calçadas, reivindique um transporte público de qualidade e as mais diversas variantes do que pode ser entendido como comportamento sustentável e coletivo.

Eu sou uma verdadeira privilegiada: moro perto do meu trabalho, vou a pé (quase) todo dia para o escritório, mas por mais que eu deteste dirigir, me vejo obrigada todos os dias a TER que dirigir. Outro dia tentei pegar um ônibus na frente do prédio onde trabalho (no Setor de Autarquias Sul) para ir à uma reunião no Venâncio 2000. Pra situar quem me lê, é só subir uma rua, eu consigo ver o prédio da minha janela, mas essa subida é totalmente inóspita e perigosa para qualquer bravo andarilho. O “zebrinha” chegou rápido. Perguntei se ele parava no lugar. Ouvi que sim. Paguei e nem sentei, pois, na teoria, em 2 minutos estaria no meu destino final. De repente, uma curva. Quem já andou de ônibus em Brasília sabe do que eu estou falando. Levou nada mais, nada menos que 40 minutos para eu chegar ao meu destino final. Esqueci que em Brasília não se vai a lugar nenhum sem antes dar mil voltas, descer e subir algumas tesourinhas. Fiquei meditando sobre o ocorrido.

Já tempos depois, em uma reunião sobre outro assunto em um órgão distrital, conversava com a arquiteta responsável e citei o ocorrido. Em meio à discussão sobre os rumos da LUOS, PPCUB, ela me olhou, suspirou e disse: “o transporte público só vai melhorar quando a classe média começar a de fato usá-lo”. Mas quem dispõe de horas para ficar passeando por Brasília antes de chegar ao(s) seu(s) destino(s) final(is)? Meditei mais um pouco.

Vivemos um momento nacional que contrasta com o que teoricamente desejamos no plano local. Queremos transporte coletivo, mas comemoramos a aquisição do carro novo e o acesso a esse tipo de bem de consumo aos mais pobres; queremos morar mais perto do trabalho e andar mais a pé ou de bicicleta, mas achamos que representa justiça social quando os menos favorecidos conseguem comprar um imóvel no meio do nada e longe de tudo (principalmente do seu trabalho); achamos muito bacana eventos comunitários-coletivos pela cidade, desde que eles não nos incomodem com o barulho e que depois venham os garis recolhendo toneladas de lixo e, por último, somos super a favor da manutenção de um plano urbanístico incompleto e engessado mesmo que isso signifique a elitização cada vez maior de uma parte da cidade que, apesar de pertencer a todos, é utilizada apenas por uma micro parcela da população.

Exigimos que o governo faça isso, resolva aquilo e esquecemos de fazer a nossa parte. Jogamos lixo na rua (para alguém catar), estacionamos nosso carro sobre a calçada (afinal, ninguém anda por aqui mesmo), preferimos que o lote destinado a uso educacional bem no centro do Plano Piloto continue vazio a ser arrendado a uma escola particular que pagará pelo uso e gerará renda para a Secretaria de Educação utilizar onde as crianças de fato freqüentam ou deveriam freqüentar a escola pública (em geral perto das casas delas), sem falar que as crianças e pais que moram perto desses terrenos teriam a chance de fazer pelo menos um percurso a pé.

Afinal, em que cidade queremos morar? O que vamos valorizar? As contradições, a falta de planejamento, a falta de educação não têm só moldado o espaço urbano onde moramos, mas têm primordialmente moldado a maneira que vivemos. Festejando os bens de consumo, mas trancados horas a fio dentro deles em intermináveis engarrafamentos. Muitas vezes atrasados para ir para academia, correr na esteira. Ou então desistindo de sair para encontrar amigos, pois mais uma vez teremos que pegar o carro para encontrá-los. Ou porque o ônibus não passa mais aquela hora ou  não vai para o bairro do amigo. O Distrito Federal é muito grande para resumi-lo ao Plano Piloto. Precisamos pensar grande, pensar em todos, precisamos ser cidadãos de verdade.

Termino com uma piadinha:

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Renata Sene

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  1. Dionisio

    Renata,
    Concordo com a varias coisas que voce descreve. A sinalizacao nas paradas de onibus e praticamente inexistente, daih o problema que voce teve no zebrinha. Fiquei assustado na penultima vez que fui a Brasilia com a policia estacionando os carros deles na calcada do Touring no nivel superior. Postei uma foto disso e teve gente que falou que nao via problema nenhum…

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    • Realmente Dionísio…é BEM difícil. Eu lembro dessa foto que você postou, fui até dar uma olhada, porque achei que tinha comentado. E não é carro só da polícia não, tem vários do GDF e até mesmo do DETRAN parados na calçada em vários lugares pela cidade. É triste demais transformar a cidade inteira em um grande estacionamento. De forma geral, a gente cuida das coisas que a gente usa. Se a gente começar a andar pela cidade, vai ver como ela está mal cuidada em termos de calçada, lixeiras (e as desagradáveis caçambas), iluminação pública e formas/oferta de transporte coletivo. Andar pela cidade é o jeito mais eficaz de transformá-la. 🙂

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