Lelé anda triste.

Há alguns anos atrás um colega de profissão do círculo próximo de Lelé me confessou: “ Lelé anda triste”. A conversa não precisava ter seguido para eu entender os motivos.

A obra construtiva e arquitetônica que João Filgueiras Lima iniciou em fins da década de 50 em Brasília ainda hoje é tida como um pensamento tecnológico de ponta e inovador. Deste fato  decorrem duas constatações: Lelé era um homem à frente de seu tempo, sem dúvida, e infelizmente, desde o início de sua atuação, em especial no que tange à industrialização da construção civil, avançamos muito pouco no Brasil.

As razões e motivos são vários, mas nenhum justifica o estágio, é forte dizer mas é verdade, medieval de nossas construções pelo Brasil. É lógico que pontualmente existe o esforço localizado da industrialização do canteiro. A reboque, o estágio construtivo do país limita o poder de ação da arquitetura. Lelé sabia disso, e por isso defendia a presença do arquiteto no canteiro gerenciando projeto e obra. Hoje a sensação é que o profissional de arquitetura se afastou ainda mais da obra e do orçamento. Talvez Lelé em determinado ponto tenha se visto prisioneiro de suas virtudes ao mostrar ser possível unir o conhecimento da técnica com a poética do desenho, fez de tudo para romper o imobilismo do fazer comum e ao criar o Centro de Tecnologia da Rede Sarah (CTRS) esperava através deste irradiar uma cultura construtiva pelo Brasil que fosse além das demandas restritas da própria rede Sarah. Neste esforço confessou ao meu colega, e era essa a razão de sua melancolia, que as prefeituras não se interessavam pelos projetos e pela tecnologia do CTRS. Por ser tudo muito bem feito, o orçamento que entregava representava precisamente o custo da obra. Não existiam sustos.

Infelizmente a lógica das licitações pelo Brasil preza por outros termos e como a discussão recente do Regime Diferenciado de Contratações (RDC) expôs, no fazer político de nosso país, infelizmente é mais interessante projetos mal detalhados e mal orçados.

Ainda trabalhando sobre todas as adversidades Lelé produziu muito e produziu bem. Agora é nossa hora de guardar seu exemplo, aprendermos com seu esforço e também de, infelizmente, ficarmos tristes com sua partida. Que suas lições nos deem mais força para melhorar o cenário da construção no Brasil.

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João Filgueiras Lima, Lelé (1932-2014)

 

Eduardo Sousa e Silva

 

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Um Comentário

  1. Dionisio

    Belo texto.
    Me lembro do Lele falando que o arquiteto tinha que ir pra obra. Levei isso a serio demais e acabei trabalhando de engenheiro de obra.

    Curtir

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