Dia Mundial Sem Carro

No último dia 22, segunda-feira, foi celebrado o Dia Mundial Sem Carro. Esse movimento começou na Europa e se espalha pelo mundo já há algum tempo. Confesso que a iniciativa sempre soou bem aos meus ouvidos, mas a realidade, sempre ela, insiste em tolir minhas expectativas. Quem me conhece sabe o tanto que questiono o papel do carro em nossas vidas. Por coincidência, logo no tal dia, imerso pelos afazeres e obrigações da profissão, de manhã cedo tive que cruzar a cidade para visitar duas obras e na sequência uma Administração Regional. Numa única manhã, entre idas e vindas, já havia me deslocado por mais de 30 km. E não parou por ai, à tarde precisei visitar mais alguns órgãos governamentais para pegar pessoalmente documentações, que obviamente poderiam ter sido enviadas por email, mas isso seria muito século XXI para nossa administração pública. Coisas da burocracia. Poderia eu abdicar de todas as tarefas que realizei? A custo de meu tempo e de meus clientes? Claro que não. Poderia ter pego ônibus e metrô? Poderia, mas teria feito metade das tarefas que fiz. E de bicicleta? Por que você não foi de bicicleta? Vamos imaginar que tudo que eu necessitasse resolver estivesse dentro do Plano Piloto de Brasília, infelizmente algo longe da minha realidade, teria eu que ser um atleta e com alguma disfunção que me impedisse de suar. Uma colega de profissão no fatídico dia sintetizou bem:

“Pedalar em Brasília é para os fortes.”

À noite, ao assistir o Jornal, vejo que GDF e Detran fecharam um estacionamento da plataforma da rodoviária para realizar eventos e reforçar a importância do dia. Na sequência o repórter entrevista um motorista que no contexto do editorial evidentemente aparecia como vilão. Imagina que absurdo estar insatisfeito com a diminuição do número de vagas. O sujeito de feições humildes muito provavelmente morava fora dos limites do DF.  A reportagem encerrou afirmando que o trânsito durante o dia foi intenso. Como sempre. E eu que moro do lado do trabalho e que tanto me esforço para não precisar utilizar o carro, no Dia Mundial Sem Carro, o máximo que andei foi ao passear com meu cachorro. Moro em Brasília.

Fica difícil não enxergar a insinceridade do apoio estatal nessa data ou ao menos o quanto aquém a propaganda diverge da prática.

Nossas ciclovias apresentam erros de planejamento tão claros que chegam a ser risíveis. Para completar, não bastasse termos tão poucas calçadas agora diversos trechos viraram ciclovias. Afinal o que veio primeiro, o pedestre ou a bicicleta? Em Brasília, a bicicleta. O mesmo Detran que fecha um bolsão de estacionamento permite que centenas de carros estacionem em passeios por Brasília todos os dias, quando multam, o fazem por amostragem. O planejamento urbano de Brasília é tão lento em suas ações que o atendimento da demanda habitacional é em larga escala suprido por expansões urbanas espontâneas, leiam-se irregulares, precariamente servidas de transporte público dada a baixa densidade. Mas por que tudo em Brasília é tão longe? Por que precisamos nos deslocar tanto?

À parte toda reflexão positiva que a data traz, como sabemos, questões estruturais, infelizmente, não se resolvem com um dia de faz de conta.

Que tal uma cidade que precise menos do carro?

Eduardo Sousa e Silva

 

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