O que é uma Woonerf?

Woonerf é um termo de origem holandesa e significa algo como rua de convívio.

A ideia é de uma rua compartilhada entre pedestres, bicicletas, crianças brincando e até mesmo carros.

E como uma rua sem divisão de espaços pode ser segura?

Através da mudança de piso, elevação do leito da via para o mesmo nível da calçada e com a retirada de sinalizações viárias, inclusive das que limitam velocidade – sim, é isso mesmo. A ideia é que o motorista se veja obrigado inconscientemente a diminuir a velocidade e a prestar atenção a tudo e todos a sua volta, os motoristas voltam a se portar como pessoas tendo contato visual e preocupados em respeitar o espaço do outro.

Para entender de onde vem esse conceito é preciso voltar um pouco no tempo.

Em tese as ruas antigas já funcionavam como as Woonerfs, lugares de encontro e extensão das salas de estar de suas residências, mas com o passar do tempo foram ficando cada vez menos amigáveis, diz-se que inclusive um dos motivos de sucesso da tipologia das Townhouses de Nova York era o fato de sua configuração elevada em relação a rua permitir um mínimo afastamento da rua, corriqueiramente inundada por fezes de cavalo. Talvez a partir daí a rua tenha se tornando um lugar definitivamente não muito agradável. Os paralelepípedos que hoje achamos lindos, tornavam a tarefa de limpar as ruas para não dizer impossível, inglória. O número de acidentes por atropelamentos fez com que as calçadas se popularizassem como solução para um deslocamento por um espaço mais limpo e seguro. Isto, aliado à popularização do asfalto fez os carros, então carruagens motorizadas, se sentirem cada vez mais a vontade para desenvolver maiores velocidades.

Se antes as ruas eram das pessoas e depois dos cavalos, agora por décadas residiriam no controle dos carros.

Neste contexto surge o Woonerf através de uma iniciativa popular em Delft, Holanda, no fim do anos 60 como uma reação ao impacto do carro e do trânsito na cidade. As pessoas literalmente ocuparam, ou retomaram a rua por assim dizer. As autoridades ao avaliarem o ocorrido perceberam os resultados positivos. Joost Váhl engenheiro de trânsito, responsável aparentemente por implantar os primeiros quebra-molas da europa, já vinha estudando alternativas para redução da velocidade dos carros e juntamente com Hans Monderman encamparam a ideia e em 1976 o governo Holandês sancionou o modelo como um novo padrão de rua a ser seguido. Inicialmente as propostas contavam com mobiliários urbanos, caminhos estreitos e sinuosos para os carros, de forma a criar ambiências urbanas mais amigáveis aos pedestres e menos convidativas aos veículos. A experiência provou que a redução de acidentes caia dramaticamente, em torno de 40%, e inclusive o fluxo de carros se reduzia. Com o aperfeiçoamento da técnica os desenhos de novas Woonerfs foram sendo simplificados para redução de custo e para implantação numa maior quantidade de áreas. Hoje a Holanda conta com mais de 6.000 Woonerfs. 

A ideia se espalhou pelo mundo e essas ruas podem ser encontradas sendo chamadas simplesmente de zonas residenciais ou espaços compartilhados.

A solução não se destina a toda e qualquer rua, rodovias de velocidade permanecerão sendo necessárias e carros ainda terão um papel importante em nossas cidades. O que não significa que devamos nos sujeitar ao carro de forma irrestrita.

Sobre a ausência de placas e orientações de como se portar nas Woonerfs, Monderman dizia:

“Quando você trata as pessoas como idiotas, eles vão se comportar como idiotas…”  “As pessoas aqui têm que encontrar seu próprio caminho, negociar para si, utilizar os seus próprios cérebros.”

Uma lição de respeito e civilidade.

Eduardo Sousa e Silva

fontes:

http://www.telegraph.co.uk/news/uknews/1533248/Is-this-the-end-of-the-road-for-traffic-lights.html

http://www.nytimes.com/2005/01/22/world/europe/a-path-to-road-safety-with-no-signposts.html

 

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