Leis sobre eficiência energética realmente funcionam?

Foi essa a pergunta que o economista Arik Levinson, professor do Departamento de Economia da Universidade de Georgetown se fez. Para respondê-la tomou como referência o California Energy Code de 1980. Interessante notar que o Estado Americano da California é tido como uma referência em políticas de sustentabilidade. A legislação tomada como exemplo para o estudo foi a primeira do tipo nos EUA.¹

A promessa do código era reduzir o consumo de energia em 80%², mas ao comparar residências construídas antes e após a legislação o consumo de energia se mostrou equivalente, assim sendo e somando-se a uma série de outras análises, surpreendentemente a conclusão de Levinson foi de que não há dados que comprovem que tais legislações, no caso examinado, tenham sido responsáveis por qualquer diminuição do consumo de energia.

Como a California é um estado imenso dos EUA, com grande variação climática, questionei por email o professor Levinson se o consumo equivalente de energia percebido em seu estudo não decorria do excesso de foco da legislação na casca do edifício (Building shell), o que poderia levar a um direcionamento excessivo no isolamento de paredes e esquadrias, com isso argui que em climas moderadamente quentes como em grande parte do Brasil, apesar das boas intenções, o isolamento torna inevitável o condicionamento do ar do ambiente, o que portanto aumentaria o incentivo ao uso do ar condicionado, zerando possíveis ganhos de eficiência. Fez mais sentido ainda meu pensamento quando o estudo mostrou que as casas construídas após a implementação do California Energy Code situadas em regiões de climas extremos, ou muito quentes ou muito frias, haviam demonstrado melhor performance, como se sabe em climas extremos o isolamento é fundamental.

No entanto o professor Levinson me alertou que embora não tenha ficado claro em seu artigo as regulações da California diferem por zonas climáticas o que diminui a probabilidade do meu argumento fazer sentindo – confesso não ter ido a fundo no estudo das peculiaridades das legislações.

De qualquer forma o estudo de Levinson levantou discussões e críticas, alguns apontam que ele não enxergou ganhos por ter focado a análise em casas e não em edifícios comerciais. Confesso ainda acreditar que seu estudo tenha deixado escapar uma necessária análise sob a perspectiva da arquitetura das casas, mas a compilação de dados e suas conclusões são de inegável relevância.

Ainda assim, é possível que de fato as novas casas tenham se tornado mais eficientes. Ocorre que tal eficiência paradoxalmente pode ter levado a um maior consumo de energia, anulando possíveis ganhos. Um provável exemplo do Paradoxo de Jevons – William Stanley Jevons foi um economista inglês que em 1865 percebeu que o avanço na eficiência do uso do carvão levava a um aumento do uso e não a uma diminuição – Em outras palavras a diminuição do consumo pelo ganho de produtividade teria o mesmo efeito que aumentar a oferta, assim o efeito positivo da eficiência seria engolido pelo aumento da demanda.

Existe muito debate sobre o tema, e a busca por soluções ou ações mitigadoras tem gerado um debate inesgotável e muito interessante. Para alguns economistas a solução está em aumentar o preço da energia, outros alertam para as consequências de tais medidas, como um crescimento mais lento da economia. Ambientalistas dirão que não adianta crescimento se não houver mais planeta e pessoas em geral não ficam muito felizes com a perspectiva de pagar uma conta de energia mais alta.

Quem sabe ainda estejamos por atingir um ponto de ruptura onde um aumento de eficiência tremendo possa sobrepujar o aumento da demanda em uma escala nunca vista, e o meio ambiente possa ser menos impactado. Talvez isso ocorra quando a energia solar tiver um drástico aumento de eficiência levando a queda de preço e a uma popularização sem precedentes.

Enquanto isso não ocorre, o que se pode tirar como certo, levando em conta a tabela abaixo, cujas estimativas apontam que graças ao California Energy Code o custo das residências na California subiram em média 10%, é que, independente de qualquer legislação³, bons projetos, ontem e hoje, ainda são o caminho mais seguro e econômico para se poupar energia.

Eduardo Sousa e Silva

tabela que mostra aumento do custo de construção em amarelo e expectativa frustrada de redução de consumo de energia em vermelho para habitações unifamiliares com a implementação do California Energy Code.

How Much Energy Do Building Energy Codes Really Save? Arik Levinson – Tabela 1 – Mostra aumento do custo de construção em amarelo e expectativa frustrada de redução de consumo de energia em vermelho para habitações unifamiliares com a implementação do California Energy Code em 1980.

Notas:

1- Embora a California seja considerada a vanguarda do pensamento em sustentabilidade na America é bem verdade que sua legislação ambiental tangenciava a questão da água e recentemente o estado passou por um infortúnio de falta de água, tudo leva a crer que graças a mudanças climáticas que levaram a diminuição da precipitação de neve o que por conseguinte reduziu a recarga dos aquíferos que abastecem toda a região. Legislações mais restritivas acabam de ser implementadas, porém o impacto pode demorar anos para ser percebido.

2 – New building codes will reduce the energy “used in typical buildings by at least 80 percent.” — California Energy Commission, 1979 

3 – Edward Glaeser em seu livro “Triumph of the City“, edição brasileira “Os Centros Urbanos“, argumenta que a California graças a sua legislação rigorosa tornou o processo de construção tão burocrático e demorado que o efeito foi a diminuição de oferta de imóveis e por consequência o aumento dos preços. Por consequência das altas nos imóveis as novas construções receberam um motivo extra para se afastarem dos núcleos urbanos para manterem preços competitivos, resultando subúrbios cada vez mais afastados. A menor economia no uso da infraestrutura urbana acaba resultando paradoxalmente em mais vias e maior uso de carros para longas jornadas, o oposto do que uma legislação “verde” desejaria.

Mais informações:

http://faculty.georgetown.edu/aml6/pdfs&zips/BuildingCodes.pdf

http://www.hks.harvard.edu/news-events/news/articles/building-energy-codes

http://freakonomics.com/2015/02/05/how-efficient-is-energy-efficiency-a-new-freakonomics-radio-podcast/

 

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