O ideal, o possível e o abandono.

Nunca fui aficionado por carros mas ainda me lembro do belo karmanguia que ficava exposto no piso superior, no seu auge funcionava também um posto de gasolina logo abaixo. O edifício é lindo, mas mesmo nessa época estava em petição de miséria. O aspecto geral sempre foi de semi-ruína. Abandono. O que tem de belo sempre teve de largado, por décadas.

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Edifício Touring, Brasília, DF. Oscar Niemeyer, 1967

Daí em diante a coisa só piorou. O abandono institucionalizou-se. Não foram poucas as vezes com relatos de brigas de moradores de rua, problemas de tráfico e até prostituição infantil. Tirando arquitetos, o cidadão médio de Brasília tinha medo do Touring. Em 2006 ou 2007, não me recordo ao certo, fizeram uma Casa Cor no lugar, muita gente na época, com excesso de otimismo, acreditava ser uma oportunidade de revitalização, nada mais distante da realidade, sumiram com os moradores de rua e desfiguraram o prédio. Somada aos restos mortais da Casa Cor a esculhambação voltou com tudo, oportunamente montaram um centro de apoio a desabrigados e posteriormente uma delegacia, a parte inferior, do posto, já há algum tempo é utilizada como extensão da rodoviária, menos pior, o lugar era, para ser gentil, inóspito.

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Edifício Touring, Brasília, DF. Oscar Niemeyer, 1967. Detalhe mostrando posto de gasolina no piso inferior e Teatro Nacional ao fundo.

Só recentemente tomei conhecimento que o edifício já havia sido vendido em leilão judicial há um bom tempo. Agora a celeuma se refere a possibilidade de uma igreja ali se instalar. Não é como se os inquilinos anteriores tivessem cuidado bem do espaço. Touring e GDF contribuiriam para o estado de degradação que perdura por décadas. Na atual crise financeira do GDF, cobrar do mesmo que se crie um centro cultural ali, soa tão insólito quanto oferecer um cigarro a um paciente com câncer terminal de pulmão – ao menos ele morrerá feliz alguém poderia dizer.

Particularmente acho que o espaço tem um potencial enorme para sediar eventos e realmente se tornar uma referência cultural numa localização espetacular. Ocorre que nas mãos do governo não irá acontecer, quem já conversou com quem trabalha com eventos e cultura no DF sabe o “parto” que é conseguir uma autorização para se fazer qualquer coisa. Não conheço a empresa responsável pelo prédio agora, mas ela foi a mercado e o interessado que apareceu foi uma igreja e que bom que apareceu.

A justificativa do esperneio é que há de se preservar o uso cultural. Convenhamos, foi cultural algum dia? Foi cultural na Casa Cor? Algum dia funcionou uma “casa de chá debruçada sobre jardins”?

Aliás sugiro aos românticos que gostam de citar a memória de Lucio Costa que deem um pulo na varanda do Touring e respirem fundo. O cheiro de gás carbônico vindo do grande pátio de ônibus abaixo não será muito reconfortante…

Como já disse acho o Touring fantástico, mas o autor, Niemeyer, aparentemente não era muito apegado e chegou a sugerir sua demolição para inserção de nova proposta. A própria implantação da Biblioteca Nacional matou boa parte da vista que um dia se teve.

Em se preservando a arquitetura do prédio não vejo mal no funcionamento de uma igreja. Bem que podiam recuperar o concreto aparente e retirar aquela pintura.

Aliás como igreja o acesso será mais público do que como espaço de eventos.

Sei que muitos colegas criticam com a melhor das boas intenções.

Ocorre que no contexto de tudo que já se passou com o edifício tudo mais me parece um conto sobre um jardim onde após décadas de abandono, entulho e descaso, um vizinho toma a iniciativa de recuperá-lo com o próprio bolso e é de pronto recriminado por outros vizinhos que sentados disparam a dar pitaco que está tudo errado.

Agora caso a igreja tenha iniciado a obra sem alvará e venha a descaracterizar o prédio, bem, ai é outra história, não é como se Brasília fosse a terra do exemplo da legalidade, está mais para das ilegalidades, mas o rito existe por um motivo, ainda mais na região central da cidade, e projetado por quem foi projetado.

Muitos insistem em desejar um centro cultural.

Sou mais modesto, desejo apenas que o Touring seja bem cuidado.

Eduardo Sousa e Silva

fotos: Revista Acrópole Julho 1970 – ANO 32 – N° 375, p. 34

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