A mulher que ajudou a mudar a história da arquitetura do séc. XX, e que provavelmente você nunca ouviu falar antes.

Em 1991 a AIA, American Institute of Architects, reconheceu Frank Lloyd Wright (1867 – 1959) como o “maior arquiteto americano de todos os tempos”. Orgulhoso e de temperamento forte, em vida, Wright não mostrava muito simpatia pela instituição que mais tarde lhe renderia tal prêmio, chegando a defini-la como “um porto de refúgio para o incompetente”. Sobre o gênio intempestivo e pouco modesto do mestre da arquitetura moderna acumulam-se histórias.

Conta-se que certa vez num tribunal acerca de suas conturbadas questões matrimoniais, sob juramento lhe foi inquerida sua ocupação, a qual prontamente respondeu: “o maior arquiteto do mundo”.

Seu filho, também arquiteto, em uma biografia conta que ao solicitar após anos de trabalho que fosse remunerado, recebeu prontamente uma conta com despesas desde seu nascimento.

Wright assim ficaria conhecido pela história e principalmente pelo seu círculo de colaboradores, como uma personalidade dominadora, de pouca ou nenhuma modéstia e que fazia questão de levar o crédito por tudo.

Embora já com uma extensa produção, até 1911 o trabalho de Wright era desconhecido na Europa, o que a época significava desconhecido no mundo, mas neste ano com a publicação do Wasmuth Portfolio¹, um livro de 2 volumes contendo 100 litogravuras com plantas e perspectivas, a história da arquitetura moderna mudaria.

Conta-se que quando o livro, recém-publicado na Alemanha chegou ao escritório de Peter Behrens, referência alemã dos primórdios da arquitetura moderna e considerado o primeiro designer industrial da história, o trabalho parou por um dia. A magnitude desse evento se demonstra pelos integrantes da equipe de Behrens à época, entre outros, Ludwig Mies van der Rohe, Le Corbusier e Walter Gropius. A influência do contato destes com a obra de Frank Lloyd Wright se tornaria evidente, e a medida que se tornavam proeminentes, Wright os depreciaria, em alguns casos acusando-os até de plágio. Ironicamente, estes mesmos, ao estudarem seu trabalho, imortalizariam Wright e juntamente com ele redefiniriam a história da arquitetura do século XX.

Ocorre que ao menos metade dos desenhos produzidos para a publicação são atribuídos a uma das primeiras arquitetas licenciadas do mundo, Marion Mahony (1871 – 1961), a ela também se atribui a técnica pelo qual as perspectivas de Wright viriam a ser reconhecidas: Composições elegantes, alongadas, integradas a vegetações exuberantes, por vezes pintadas com aquarela provavelmente influenciadas por gravuras de paisagens japonesas.

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Em resumo Debora Wood, organizadora de uma mostra da arquiteta, em reportagem do New York Times², afirma:

“Ela fez os desenhos que vem à mente das pessoas quando elas pensam em Frank Lloyd Wright.”

Barry Byrne³, membro da equipe de Wright em outro registro comenta:

“Ela era a mais talentosa da equipe de Frank Lloyd Wright… Sr. Wright ocasionalmente sentava-se na prancheta de Marion para trabalhar em seus desenhos, e me lembro de uma ocasião hilária em que sua intervenção arruinou o desenho. Na ocasião Andrew Willatzen, um franco membro da equipe, proclamou em alto som que Marion Mahony era superior a Wright como desenhista. E de fato, ela era. ”

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Após 14 anos trabalhando com Wright, em 1909 ele abandona sua mulher e filhos e foge para Europa com Mamah Borthwick Cheney, esposa de um cliente. Antes de ir, oferece os trabalhos em andamento para Mahony, mas ela recusa.  Hermann V. von Holst arquiteto que acaba assumindo os projetos por fim contrata Mahony dando total autonomia sobre os projetos. Em 1911 ela casa com Walter Burley Griffin (1876 – 1937), talentoso arquiteto que fez parte da equipe de Wright e que após desentendimento com ele havia montado seu próprio escritório em 1906, Mahony quando trabalhando para Holst havia indicado Griffin para desenvolver o paisagismo de um conjunto de três casas.

Após o casamento eles passam a trabalhar juntos e por insistência de Mahony participam do concurso para o projeto da futura capital da Austrália, Camberra, da competição saem vencedores. A qualidade dos desenhos e da apresentação preparada por Mahony é considerada decisiva para o sucesso da proposta. O casal se muda para a Austrália para inspecionar a execução do projeto.

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Conjunto de 4 partes que formam uma ilustração de 6 m de comprimento – Proposta vencedora para Camberra, Austrália.

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Wright quando inquerido sobre o casal se referia, de forma pejorativa, a Mahony como uma assistente capaz e a Griffin como um desenhista.

Após a morte de Griffin durante o acompanhamento de um projeto na Índia em 1937 ela encerra os projetos na Austrália e retorna para Chicago virtualmente dando por fim sua atividade como arquiteta.

Em seu livro de memórias, “The Magic of America” compilação manuscrita nunca publicada, mas disponibilizada no site http://www.artic.edu/magicofamerica/index.html , Mahony revela-se, segundo Alice Friedman4, uma mulher de múltiplos interesses, determinada, com grande energia criativa, uma companheira que idolatrava seu marido, Walter Burley Griffin e que, por fim, odiava Frank Lloyd Wright.

Eduardo Sousa e Silva

 

notas:

1 – Hoje publicado como “Drawings and Plans of Frank Lloyd Wright: The Early Period (1893–1909)”, edição que motivou este artigo.

2 – http://www.nytimes.com/2008/01/01/arts/design/01maho.html?_r=0

3 – http://sketchbook.carolkurtharchitects.com/2011/03/31/designers-who-inspire-marion-mahony-griffin/

4 – https://placesjournal.org/article/marion-mahony-griffin/

Imagens:

Wasmuth Portfolio http://www.architechgallery.com/arch_info/exhibit_docs/exhibits_2007/wright_wasmuth_essay.html

Projeto Vencedor para Camberra – http://www.griffinsociety.org/

Marion Mahony Griffin – https://placesjournal.org/article/marion-mahony-griffin/

 

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